Por que a observação de aves é importante para a conservação de parques

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A observação de aves em parques públicos é boa para o parque e para o observador.

O Brasil é o segundo país do mundo em espécies de aves: são 1911 espécies.

Pedalar, escalar, tomar banho de cachoeira. Um dia no parque pode ser para todos os gostos. Pensando nisso, estamos começando uma série de entrevistas com pessoas ligadas às mais diferentes atividades para quem quer visitar um parque.

Na conversa de hoje, Pedro Develey, diretor de conservação da Sociedade para Conservação das Aves do Brasil, conta um pouco sobre a observação de aves e quão importante ela é para a conservação. Para ele, a paixão pelos pássaros não é de hoje. Começou lá na infância, nas férias no sítio, e se tornou tema de mestrado e doutorado.

 Leia a entrevista completa:

Semeia: Como a observação de pássaros contribui para a valorização dos parques?

Pedro Develey: A atividade deixa uma informação muito valiosa para os parques. Além de se divertir e ficar feliz em seu momento de lazer, o observador gera uma informação científica. Ele deixa uma lista das aves registradas e isso também diz muito sobre o parque.

As aves são extremamente didáticas e fáceis. Se sairmos na rua agora, veremos pelo menos três espécies de aves. Além disso, elas respondem muito bem a qualquer alteração do ambiente, então elas funcionam como um termômetro. A presença de uma espécie pode indicar se o local é muito urbanizado ou se a área está degradada, por exemplo.

É bom para o parque e é bom para o observador. Além de frequentar o parque, e aumentar o número de visitas, ele está deixando um dado biológico e participando da gestão da conservação. É daí que vem o nosso conceito de cidadão cientista.

Qual é o cenário da observação de aves no Brasil?

O Brasil é o segundo país do mundo em espécies de aves: são 1911 espécies. E essa diversidade favorece muito. Tem observadores, principalmente estrangeiros, que chegam a ficar 15 dias em circuitos que passam pela Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado e Amazônia.

Antigamente eram praticamente só estrangeiros fazendo a observação de aves por aqui, mas o número de brasileiros cresceu bastante na última década. Hoje estima-se entre 30 e 40 mil brasileiros, o que é incrível. Também tem crescido muito o número de guias. Há 15 anos, não existia brasileiro guia de observação de aves. Os turistas vinham já com o guia americano. Hoje não é mais assim.

Como começar a praticar a observação de aves?

Tem várias maneiras. Hoje está cada vez mais fácil procurar algum grupo perto de você que já esteja praticando observação de aves. Aqui em São Paulo, por exemplo, a gente tem um programa com a prefeitura em que a cada dois meses fazemos uma saída em parque urbano. Geralmente são passeios em um sábado de manhã.

Mas você também pode pegar uma máquina fotográfica, ou binóculo – que são os dois instrumentos fundamentais – um desses guias de campo e começar. E aí a dica é começar por uma praça perto da sua casa, onde você vai ter um universo de 15, 20 espécies e ir desenvolvendo a partir daí.

Nossos parques têm infraestrutura necessária?

Tem alguns parques que são excelentes para os observadores de aves e outros que são péssimos, mas tem toda uma discussão institucional. Geralmente, nos planos de manejo, isso fica na mão do gestor e às vezes nos deparamos com gestores que proíbem, por exemplo, fotografar os pássaros. É preciso regularizar. Em são Paulo tem uma portaria para a observação de aves que ficou bem bacana.

É preciso ter boas trilhas, sistema de sinalização onde você pode dar instruções ou falar “aqui é o território do tucano de bico, sempre tem um por aqui”. Outra coisa importante é o horário de funcionamento. A maioria dos parques abre a partir das 8h, o que é tarde. A observação de aves tem que começar junto com o sol nascendo, então o ideal seria ter um horário especial para o observador.

Também é interessante ter bebedores de beija-flor e comedouros no centro de visitantes. Às vezes é difícil entrar no meio do mato para quem está começando. Às vezes a pessoa não vê os animais. O comedouro ajuda quem tem dificuldade de locomoção e quem não quer enfiar o pé na lama para ver a vida silvestre. Várias dessas pessoas vão achar incrível esse monte de passarinho e alguns podem virar observadores mais especializados por meio desse estímulo.

Enfim, ainda tem desafios, mas eu acho que a gente está progredindo. O Brasil é um país jovem e essa questão de meio ambiente e de valorização de unidades de conservação ainda é nova. Eu sou super otimista, vejo que estamos abrindo portas e acho que isso tudo ainda vai melhorar bastante.

Fonte: Huffpost Brasil